26 - Carlos Gomes escreve
(tenho o original)
Milão 31-5-88
Meu amigo Visconde de Motta Maia
Tenho bastante confiança na attenção do nosso Presidente Conselheiro, vista a sua valiosa recomendação; infelizmente elle no Rio de Janeiro, ignora que aquelle meu pedido é urgentíssimo e que só fiz por força maior, senão enfim reduzido a última expressão.
Minha filha Itala, que entre agora em lenta convalecencia de uma pleurite, precisa deixar este clima; e eu não posso seu útil a saúde da minha filha, faltando-me. Quem não me conhece diria que nada fiz na minha carreira; e é natural: quam fica reduzido a pedir é signal que pouco valor tem.
E não se engana quem pensa assim: pois vale bem pouco a minha intelligencia a respeito de algarismos...
A minha nova opera o "Escravo" poderia subir a scena do Rio de Janeiro, e precisamente no dia 2 de Dezembro em homenagem à Patria e à Família Imperial que tanto fez até a liberação total da escravidão.
Eu poderia restituir qualquer quantia que me fosse adiantada, pois conto certo com o bom resultado d'esta opera, sem contar a grande saptisfação moral que teria o generoso que hoje quisesse me tirar do embaraço.
Sem isso a opera ficará na escuridão do esquecimento e da indifferença.
Eu não duvido que o amigo Motta Maia, lendo estas linhas, comprehenderá a grandeza do meu projeto para da incalculável saptisfação que teria, se fosse possível auxiliar-me de qualquer modo, abraço que eu lhe daria no dia 2 de Dezembro ao terminar a opera!!..
Motta Maia em me comprehende; é patriota e fará o que puder.
Em todo caso fique certo que mesmo não sendo possível me auxiliar, serei sempre amigo pelas demonstrações de estima que tão espontaneamente me deu.
Espero porem poder lhe dizer antes de deixar Milão.
Aceite, amigo V. Motta Maia, um aperto de mão de seu grato amigo,
A. Carlos Gomes